13/06/2018 - 02h55

Jovens afetados por retração recebem salários menores pelo resto da vida

Fonte: Folha de S. Paulo

 
Perda permanente de renda, maior risco de se envolver com crimes e até de morrer precocemente são algumas das cicatrizes que podem marcar quem enfrenta uma recessão na juventude, segundo pesquisas para países desenvolvidos.
 
Embora esse tipo de impacto ainda não tenha sido estudado no Brasil, os prejuízos do recente ciclo recessivo para os jovens tornam-se cada vez mais evidentes.
 
Entre o fim de 2014 e o início deste ano, a taxa de desemprego saltou de 21% para 44% entre os brasileiros de 14 a 17 anos e de 14% para 28% entre aqueles de 18 a 24 anos.
 
A elevação foi fruto tanto de demissões quanto da busca por vaga entre os jovens que, nos anos de crescimento, ficaram fora da força de trabalho.
 
Os que aproveitaram o contexto favorável para se dedicar só aos estudos provavelmente se qualificaram, aumentando a sua empregabilidade. Mas mesmo os jovens que trabalharam no período de expansão melhoraram suas perspectivas de inserção profissional, já que muitos se beneficiaram do aumento do emprego formal.
 
Segundo o Banco Mundial, esses fatores contribuíram para a queda da fatia de jovens brasileiros em situação de vulnerabilidade de 62% para 52% do total, entre 2004 e 2015.
 
Esse "indicador de desengajamento" inclui tanto os que não estudam nem trabalham (chamados "nem-nem") como aqueles que estão atrasados na escola ou empregados no mercado informal.
 
"As perspectivas tanto dos nem-nem quanto daqueles que estão na escola sem aprendizagem adequada ou com vínculo laboral precário são preocupantes", diz Rita Almeida, do Banco Mundial.
 
A economista alerta que, com a crise, é possível que o desengajamento –que, apesar da queda até 2015, permanecia elevado– tenha voltado a subir. Dados divulgados recentemente indicam que a preocupação de Rita Almeida tem fundamento.
 
Segundo análise de três pesquisadores do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), a fatia de jovens de 15 a 29 anos com vínculo de trabalho informal passou de 40,5% para 42% do total entre os primeiros trimestres de 2015 e 2017.
 
De acordo com o IBGE, entre 2016 e 2017, a parcela dos nem-nem entre os jovens de 15 a 29 anos saltou de 22% para 23% do total, atingindo um contingente de 11,2 milhões.
 
Almeida ressalta que quanto mais cedo o jovem entrar em uma situação de vulnerabilidade, menores as chances de futura reversão da situação. "Por isso é importante agir preventivamente", diz ela.
 
Pesquisas como a da americana Lisa Kahn indicam que jovens afetados por recessões -inclusive os que conseguem diplomas universitários nesses períodos- recebem salários menores pelo resto da vida.
 
Os acadêmicos Hannes Schwandt (Universidade de Zurique, na Suíça) e Till von Wachter (Universidade da Califórnia, nos EUA) concluíram recentemente que os efeitos de crises severas extrapolam a renda e incluem até o risco de mortalidade precoce, que é maior entre aqueles que não são brancos e aqueles que abandonam o ensino médio.
 
Outro estudo recente de Brian Bell e Stephen Machin (London School of Economics) e Anna Bindler (University College London) indica que recessões também aumentam a chance de que jovens se envolvam com atividades criminosas.
 
 
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